22 de set. de 2018

Espaço Musical: Cidadão

Em 1979, o músico mineiro Zé Geraldo gravou a canção Cidadão, do compositor baiano Lúcio Barbosa, e que ficou conhecida na voz do músico paraibano Zé Ramalho. Uma canção que fala de um migrante que saiu do sertão para a busca de oportunidades na cidade grande, mas que sentiu na pele o preconceito e a desigualdade. Um retrato dos trabalhadores que saem de seu lugar de origem no sonho de uma vida melhor. 

Álbum: Frevoador - 1992 - Zé Ramalho
Em 1978, Zé Geraldo, cantor e compositor do Vale do Rio Doce, Minas Gerais, conheceu o compositor baiano Lúcio Barbosa, que apresentou uma de suas obras, a canção Cidadão. Que anos depois seria uma das grandes canções da música popular brasileira, interpretada por grandes artistas como o cantor e compositor, Zé Ramalho.
Zé Geraldo logo que ouviu a canção ficou encantado, e em parceria com Lúcio, gravou a canção em 1979, no álbum Terceiro Mundo. Embalava assim o primeiro, e maior sucesso de Zé Geraldo. Anos depois, em 1992, no álbum Frevoador, Zé Ramalho também gravou a canção, sendo grande sucesso.
A canção traz um personagem real, no qual Lúcio Barbosa quis homenagear, seu tio que era pedreiro, e saiu do sertão baiano para tentar a vida nas granes metrópoles onde começaram a desenvolver-se durante as décadas de 1970.
Lúcio Barbosa
E diante destas mudanças no país, de desenvolvimento industrial, e urbanização, outros tantos como o tio de Lúcio, se depararam com uma realidade com o preconceito dos migrantes nordestinos, e a desigualdades de oportunidades de classes no país. Uma canção que promove reflexões críticas da realidade brasileira.
O sucesso desta canção, se dá diante a identidade das migrações internas no Brasil, da exploração da mão-de-obra, e as relações de desigualdades sociais e oportunidades presentes principalmente em grandes capitais. Onde muitos se colocam nesta realidade, ou observam ao seu entorno casos reais.

Confira abaixo a Canção:
Cidadão
Compositor: Lúcio Barbosa/ Cantor: Zé Ramalho.

Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar

Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz, desconfiado
Tu tá aí admirado
Ou tá querendo roubar?

Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento
Ajudei a rebocar

Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
Pai, vou me matricular
Mas me diz um cidadão
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar

Essa dor doeu mais forte
Por que é que eu deixei o norte?
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Tá vendo aquela igreja, moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também

Lá foi que valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse

Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar

Hoje o homem criou asa
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar

18 de ago. de 2018

Canto Poético: Parangolivro.

A arte da poesia pode provocar vários sentidos e sentimentos, e ao mesmo tempo não ter sentido algum, mas o sentimento ainda persiste. O poeta Aroldo Pereira é um dos grandes nomes da poesia norte-mineira, e em sua obra Parangolivro, o poeta se inspira em Hélio Oiticica, com o conceito da arte parangolé, dentro de uma desintelectualização nas obras artísticas. E com esta visão o poema Parangolivro, em homenageia a cantora e compositora Adriana Calcanhoto a partir da canção Parangolé Pamplona.

Aroldo Pereira
O poeta, ator, compositor, agitador cultural e performer João Aroldo Pereira, nasceu em Coração de Jesus, mas foi em Montes Claros, que ficou reconhecido como um dos grandes nomes da poesia norte-mineira. Autor de diversas obras, o poeta traz desde uma linguagem acadêmica a simplicidade com a cultura popular, uma rica obra de poesias que provoca vários sentimentos. De posição política e identitária, a um simples fato cotidiano.
Integrante fundador do Grupo de Literatura e Teatro Transa Poética, e criador do Salão Nacional de Poesia Psiu Poético. O poeta Aroldo Pereira, é uma das grandes referências da identidade cultural catrumana, norte-mineira. Em sua obra Parangolivro de 2007, Aroldo promove uma reflexão ao artista plástico Hélio Oiticica, que conceituou o termo parangolé, que traz o sentido de uma “anti-arte”, ou o sentido de uma desintelectualização da arte, dando a ela uma maior liberdade de se movimentar, sem se prender a técnica e método. “Tais  características  apontam para  um  sentido  de  uma  poética fora do senso comum e a contrapelo da previsibilidade, o que nos remete quase que espontaneamente ao termo “marginal”.”(RABELLO, p.305, 2014)
Outra grande inspiração a sua obra, Aroldo tem a referência com a canção Parangolé Pamplona da cantora e compositora Adriana Calcanhoto, na qual foi a grande dedicação do poema-título, Parangolivro.
Segundo  o Novo Dicionário de Língua Portuguesa,  marginal  é  aquilo  relativo  à margem,  pertencente  a  lugares  marginais.  Nota marginal, por exemplo, é o que se escreve na margem da folha de um livro ou de qualquer documento escrito, não integralizando o corpo do texto propriamente dito. O indivíduo que se põe fora das leis, é o que vive à margem da sociedade; considerado também indigente, vadio, delinquente ou simplesmente pertencente a uma minoria social (Ferreira 2001: 189). Se considerarmos tais significados, Aroldo Pereira apresenta-se, desde o início de seu livro, como um poeta marginal, como se lê no poema-título, “Parangolivro”, dedicado a Adriana Calcanhoto. (RABELLO, p.306, 2014).
Parangolivro traz assim a liberdade da poesia, e abre a outros olhares, dentro desta “marginalidade” que a poesia pode ocupar. Aroldo como um poeta de grande variedade e movimento, traz este perfil de poeta marginal que a Ivana Rabello retrata em suas reflexões da obra do poeta.

PARANGOLIVRO
Por: Aroldo Pereira

 Negro pobre poeta
(...)
ler e descobrir
escrever bater com a cabeça
Aroldo Pereira
uma arma em nossa mira
viver longo
cada instante
olhar os filhos sem fim
caminhar sob o sol
fugir do inferno de si
o azul não suporta o cavalo
mentir é arma de domínio
negro
pobre
poeta
uma chuva rala
uma
procissão
de indiferentes
o corpo permanece
no asfalto Parangolivre.

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